É este ponto, fundamental para a afirmação da Europa no plano geopolítico global, que continua a motivar as maiores dissenções e a impedir que o projecto de integração europeia possa prosseguir a marcha que tantos ecoam como desejável.

O não irlandês não vem propriamente colocar a Europa numa crise. Essa crise já se vem fazendo sentir há vários anos. Isto porque os líderes políticos europeus, apesar dos seus bem intencionados esforços de dotar a União Europeia de maior agilidade institucional, continuam sistematicamente a cair no mesmo erro de conduzir os destinos políticos da Europa fora da órbita dos seus cidadãos, eles que deveriam ser a grande mola impulsionadora do projecto.

Desde a sua fundação que a Europa se quis como um projecto para as pessoas. Ou seja, os seus cidadãos. Porém, verifica-se que os acontecimentos mais recentes da história europeia foram sempre decididos longe dos europeus. E quando assim não aconteceu, os europeus confrontaram os seus decisores mostrando-lhes o sinal vermelho e alertando-os de que a Europa ainda não está politicamente madura, que os cidadãos deste continente, por défice de informação ou por desconfiança face às entidades políticas, não estão ainda politicamente convictos quanto à Europa política.

Défice de cidadania e cultura política europeia, por um lado. Défice de sensibilidade política dos líderes europeus, por outro. O não irlandês vem colocar, mais uma vez, o dedo na ferida da União Europeia: a Europa continua a ser ainda vista, em grande parte, como um conjunto de pesadas instituições burocráticas em Bruxelas ou no Luxemburgo, da concessão de subsídios para diversos projectos e, principalmente, continua a ser uma ameaça para o cidadão comum de qualquer país que, pouco ou nada esclarecido e sem possibilidade real de actuação no espaço político europeu, olha com inteira desconfiança para aqueles “senhores de Bruxelas”.

Respira-se Europa em termos culturais, incutem-se os valores europeus a toda a escala, mas há ainda muito caminho a trilhar para que a utopia política da Europa seja uma realidade vivida e sentida por quem de direito, os cidadãos europeus.

E a esse respeito, falta um dado essencial para que não se volte a repetir um não como o que a Irlanda votou em referendo: a criação de uma cidadania europeia, de uma opinião pública europeia. Uma tarefa que as instituições europeias devem promover a par da revisão dos Tratados. Uma tarefa que será essencial para que a Europa possa dispor de uma voz comum em matéria política.

Autor: Bruno Rego