Onde pára a Cidadania Europeia?
O não irlandês ao Tratado de Lisboa, à semelhança da recusa francesa e holandesa de 2005 à defunta Constituição Europeia, vem colocar um freio a um certo optimismo que se tinha vindo a propagar nas instâncias europeias desde a assinatura do Tratado em Outubro do ano passado e, acima de tudo, evidencia aquele que continua a ser o grande problema com que se debate a Europa: a incerteza do rumo futuro do seu projecto político e institucional.
É este ponto, fundamental para a afirmação da Europa no plano geopolítico global, que continua a motivar as maiores dissenções e a impedir que o projecto de integração europeia possa prosseguir a marcha que tantos ecoam como desejável.
O não irlandês não vem propriamente colocar a Europa numa crise. Essa crise já se vem fazendo sentir há vários anos. Isto porque os líderes políticos europeus, apesar dos seus bem intencionados esforços de dotar a União Europeia de maior agilidade institucional, continuam sistematicamente a cair no mesmo erro de conduzir os destinos políticos da Europa fora da órbita dos seus cidadãos, eles que deveriam ser a grande mola impulsionadora do projecto.
Desde a sua fundação que a Europa se quis como um projecto para as pessoas. Ou seja, os seus cidadãos. Porém, verifica-se que os acontecimentos mais recentes da história europeia foram sempre decididos longe dos europeus. E quando assim não aconteceu, os europeus confrontaram os seus decisores mostrando-lhes o sinal vermelho e alertando-os de que a Europa ainda não está politicamente madura, que os cidadãos deste continente, por défice de informação ou por desconfiança face às entidades políticas, não estão ainda politicamente convictos quanto à Europa política.
Défice de cidadania e cultura política europeia, por um lado. Défice de sensibilidade política dos líderes europeus, por outro. O não irlandês vem colocar, mais uma vez, o dedo na ferida da União Europeia: a Europa continua a ser ainda vista, em grande parte, como um conjunto de pesadas instituições burocráticas em Bruxelas ou no Luxemburgo, da concessão de subsídios para diversos projectos e, principalmente, continua a ser uma ameaça para o cidadão comum de qualquer país que, pouco ou nada esclarecido e sem possibilidade real de actuação no espaço político europeu, olha com inteira desconfiança para aqueles “senhores de Bruxelas”.
Respira-se Europa em termos culturais, incutem-se os valores europeus a toda a escala, mas há ainda muito caminho a trilhar para que a utopia política da Europa seja uma realidade vivida e sentida por quem de direito, os cidadãos europeus.
E a esse respeito, falta um dado essencial para que não se volte a repetir um não como o que a Irlanda votou em referendo: a criação de uma cidadania europeia, de uma opinião pública europeia. Uma tarefa que as instituições europeias devem promover a par da revisão dos Tratados. Uma tarefa que será essencial para que a Europa possa dispor de uma voz comum em matéria política.
Autor: Bruno Rego

Comments
Estava eu em França a leccionar quando recebi na minha caixa de correio, um livro de capa azul com algumas estrelas amerelas, dentro de um plástico, remetido pelo governo francês a todos os cidadãos que se encontravam em solo francês.
Fiquei até comovido por poder ler na intengra o Tratado Europeu, no recanto do meu sofá, pensando como seria bom, muito bom até, como as classificações que dou aos meus alunos termos o mesmo procedimento em Portugal. Mas não temos e o preço a pagar por esta falta de cidadania politico/governamental que um pouco mais de duas centenas de parlamentares e governantes, continuam a manter os portugueses afastados da realidade europeia( senão nacional...) da sua importância, dos seus valores e da sua riqueza cultural.
Actualmente como estudante ( um pouco tardio talvês...) do curso de Ciência Politica e Relações internacionais na FCSH da UNL, sinto que todos os seguntos contam para que possa intervir ainda mais nesta construção forte de uma Europa a uma voz.
Nessa época não muito distante e já com o mestrado em sociologia feito na mesma faculdade, assisti ao Não dos holandeses e a explicação do seu jovem 1º ministro, para o facto.
Assisti postriormente ao Não Francês ( que medo dos turcos...) e ouvia por aqui e por ali ( menos em muitas das associações portuguesas onde como cá o futebol domina as discussões de fim de semana dos emigrantes ( não de todos, como sabemos) um sentimento de vitória francesa quais tropas de Napoleão.
Em Bruxelas, no Instituto Americano e posteriormente na embaixada, como convidado para uma sessaõ de reflexão de politica europeia, encontrei deputados eleitos pelo meu Distríto. Que alegria senti! Mostravam a muitos belgas as delicias do vinho de Pegões e de Palmela e os queijos de azeitão? Que maravilha! Como estão, perguntei a 2 senhores deputados do meu círculo...
Identifiquei-me, eles por acaso não mas conhecia-os das capas das revistas... e dizeram-me: ha, sim claro, claro, muito bem, assim, talvêz, pois e até já e ...
Retirei o meu casaco, tipo Kispo barato ( ha, não levei gravata, talvez tenha sido praticamente ignorado por essa falta, mas tb já fui politico numa assembleia de Freguesia e numa assembleia Municipal, sei que é diferente, mas temos responsabilidades para quem nos elegeu...
Retirei-me descendo no elevador e pensando: afinal o convite referia-se aos emigrantes e o encontro foi às 16horas; a que emigrantes se referia o convite? Sobre uns pequenos flocos de neve que serviam de tapete aos meus passos até à estação de metro mais próxima de ligação a Bruxelas-Midi, para apanhar o TGV de regresso, algumas lágrimas (ou seria do tempo?) misturavam-se com o vento de teimava em bater no meu rosto como que a dizer:
Vale sempre a pena estar, ver, falr, confrontar, não serão alguns que terão a força de muitos e Portugal merece mais e melhor, sempre mereceu!
Fiquei mais quente com aquela idéia e com o ar condicionado do TGV, mantendo a força mental de que um dia, todos os portugueses saberão quem são os politicos que elegeram e que funções desempenham, numa avaliação que ser quer convincente e responsavel, mesmo por muito dura que seja. No dia 7 de Junho, apesar de ser um domingo, há avaliações. Espremos que não faltem muitos e que os resultados em média sejam satisfatórios para o futuro de Portugal. Quanto aos alunos que vão ser avaliados, uns são repetentes outros estão a começar...tal como no ensino.
Fiquem bem Irlandeses...