Com a assinatura do Tratado, no próximo dia 13 de Dezembro, e a sua ratificação em 2009, a Europa deixa para trás o impasse institucional em que havia caído, após o não convicto expressado em referendo de franceses e holandeses à defunta Constituição Europeia, em 2005. Retirados do Tratado os elementos que nele poderiam soar ainda a Constituição - a bandeira e o hino -, existe, finalmente, uma base comum de trabalho que permite prosseguir o aprofundamento da Europa a uma voz comum. Somos mais europeus desde ontem? Política e institucionalmente, caminhamos para isso. Em relação às (ainda muitas) desconfianças que nutrimos quando ouvimos falar de Europa, estamos ainda longe de sermos 'europeus' por desejo e afirmação inequívoca.

O Tratado de Lisboa representa apenas mais um passo, um pequeno passo, em direcção a um projecto que Jean Monnet e Robert Schuman sonharam há mais de cinquenta anos. Um projecto feito de conquistas lentas. De integrações graduais. A Europa, como se pode verificar pelas divergências que se colocaram ante a presidência portuguesa nestes últimos três meses, é ainda um terreno imenso a ganhar. Que se está a conquistar a par e passo. E que levará ainda décadas a maturar no plano da identificação com a 'Ideia de Europa', do que ela representa.

Uma Europa comum está cada vez mais presente diante dos nossos olhos. E não só no espaço político. É um facto que há que aceitar quer-se queira, quer não. Mas nem por isso devemos deixar de perguntar: este Tratado é uma conquista dos políticos europeus ou expressão da vontade dos 493 milhões de habitantes que constituem os 27 estados-membros? A existir um referendo em todos os países para a aprovação do Tratado, e não apenas a sua aprovação por via parlamentar (que acontecerá seguramente em quase todos os países, à excepção da Irlanda, que já deixou claro ir realizar um referendo), estaria ele condenado ao sucesso ou ao fracasso? A recusa dos governos europeus em realizarem referendos nos respectivos países não representa um clima de medo que os actores políticos têm de que os cidadãos - os verdadeiros interessados e protagonistas dessa tão esperada Europa - discordem do rumo que se está a a seguir e vetem democraticamente o avanço do projecto europeu? Não é este medo um sinal de que há ainda muito trabalho a fazer em matéria de subsidariedade (uma das vitórias do Tratado de Nice, em 2001) em prol da Europa? De que a cidadania europeia é ainda um espaço por realizar?

Parece que ainda há lições passadas que não estão bem claras: a Europa não pode ser construída com demasiada pressa (como ficou patente com o fracasso da Constituição), nem longe dos seus cidadãos como tem acontecido até agora. A integração política que traz o Tratado de Lisboa é apenas uma de muitas dimensões de uma Europa que faz do seu lema 'A unidade na diversidade'. Uma das mais importantes, mas não a única que convém aprofundar. O futuro reclama uma maior aproximação dos políticos aos cidadãos e um maior esclarecimento sobre o que representam os valores europeus. Dizer que a Europa não é apenas uma fonte de subsídios e fundos estruturais que vêm de Bruxelas para o desenvolvimento dos estados-membros ou a facilidade com que, hoje em dia, se percorre o espaço europeu devido às tarifas praticadas pelas companhias low cost. É tudo isso. Mas também é mais, muito mais, que isso.

Apontamentos que ficam no ar para que o sucesso deste momento concretizado ontem em Lisboa seja mais um passo a dar em frente numa Europa que é, cada vez mais, o nosso espaço comum. Herança do passado e projecto de futuro.