No Castelo, abrem-se de par a par as janelas com vista para as tuas colinas.

Sete veredas labirínticas de portas entreabertas, onde as vozes cedem o lugar aos ecos e os silêncios emudecem toda e qualquer palavra nos lábios de quem te espreita, desvelando o mistério que ocultas em cada recanto teu.

E o brilho que se magnetiza nos olhares de quem passa testemunha a vertigem causada pela tua beleza frágil de velha senhora sábia e respeitável, outrora ponto de partida para a descoberta de novos mundos além-mar, em busca de ouro e especiarias.

Hoje são os teus admiradores que vêm em busca de ti, demandando a refulgência de outros ouros e de outras especiarias. Teu sol é o ouro que luz calmamente ao fim da tarde, na tranquilidade daquele interlúdio entre o dia e a noite. Os odores que ostentas na expressão de surpresa de quem te descobre são as tuas especiarias.

Nos cafés e esplanadas, uma pletora de vozes ergue-se e discute este, aquele e qualquer outro tema. As conversas agarram-se e dispersam-se num aroma de sentidos equívocos. Perdem-se e ganham-se razões em diálogos amenos. Pede-se uma bica ao empregado. Um pastel de nata ajuda também a adoçar os tons das palavras escolhidas. Muitas frases que não se terminam. Ficam a meio, desembocando em outras conversas. O jornal aberto em cima da mesa e folheado serenamente, sem pressa de ser lido atentamente.

Da Graça, no miradouro, falam de ti em diversas línguas realçando os contornos das cores pintadas nos frontispícios das tuas casas, do rubor fogo incandescente inscrito nos teus telhados.

Em Santa Catarina, para lá do Chiado, deliciam-se com as canoas que vogam no Tejo, indagando onde levam as suas melífluas e morosas correntes.

Os alfarrabistas da Rua do Alecrim tingindo discretamente a alma com as páginas de livros raros, amarelecidas pelas viagens no tempo. Ainda lá estão, nos arquipélagos da memória, os hotéis da longa Avenida, onde espiões conjuraram intrigas que fizeram os alemães perderem a guerra e o amor se viveu intensamente, muitas vezes por uma noite, porque o dia seguinte poderia não chegar a existir.

No Terreiro, os pombos do Paço debicam o chão em busca de milho que generosamente lhes oferecem os que te habitam, velha senhora. Se fosses mulher em vez de cidade seriam eternas as noites em que te tornarias o centro de todas as atenções com a infinidade de histórias que albergas e que por pudor, apenas por pudor e fidelidade aos que em ti já viveram, silenciosamente calas.

Mas dia após dia, noite após noite, os que não dormem sonham-te na intimidade coloquial dos bares e na sumptuosidade dos restaurantes. E, ao verem reflectido o nascer do sol, nas águas do teu rio companheiro exclamam que, definitivamente, és perdidamente um caso de amor.

 

Autor: Bruno Rego